jusbrasil.com.br
30 de Outubro de 2020

Quando ser feliz é melhor que ter razão!

Elane Souza DCJ Advocacia, Advogado
há 8 meses

Para quem ainda não sabia, a Mediação, a Negociação, a Conciliação e a Arbitragem são milenares; desde a época de Cristo e muito antes, já solucionavam conflitos a partir dos modelos citados e de muitos outros; veja, por exemplo, o que aconteceu quando o Rei Salomão foi procurado para "decidir" (resolver) um conflito entre duas senhoras que afirmavam ser mãe de um único bebê.

Não sabemos se eram irmãs, ou esposas de um mesmo homem, o fato é que moravam juntas: durante certa noite uma delas acabou se virando e sufocou o próprio filho; ao acordar, vendo o filho morto, esta tratou de pegar o filho da outra e colocar o seu, (falecido), no lugar.

Foi então que ambas começaram um grave desentendimento que acabou tendo que ser levado diante do Rei, para este decidir!

Uma vez, frente ao Rei Salomão, e contestadas, cada uma dizia que o filho era seu - o rei, sabiamente disse que a única forma das duas ficarem satisfeitas seria partir o bebê ao meio, assim, cada uma ficaria com uma parte, propôs isso porque não foi capaz de ver a verdade em nenhuma das mães.

No entanto, ao agir assim a verdadeira mãe logo apareceu, se fez notar, se revelou por meio de palavras!

- Prefiro que o bebê fique com ela, que ser dilacerado (partido ao meio, morto), a outra ainda preferia que partisse a criança, do que abrir mão dele!

A senhora que preferiu entregar o bebê a outra, que partí-lo ao meio, é a típica pessoa que prefere ser feliz a ter razão; essa atitude acabou deixando claro que o filho era dela, não da outra - piedade e amor incondicional a criaturinha, 'objeto' do conflito, foi a razão pela qual ela decidiu abrir mão do filho.

A partir das atitudes citadas, o Rei Salomão deu a criança a verdadeira mãe!

Na atualidade criaram uma EStória, creio que partiu da Escola Tradicional Linear de Harvard (Roger Fisher e Willian Uri), onde uma mãe chega em casa e vê as duas filhas em conflito por uma única laranja.

- O que ela faz?

Não pergunta, não discute, não indaga, não quer saber o porquê cada uma das meninas quer a laranja inteira - simplesmente pega uma faca, parte a laranja ao meio e entrega metade dela a cada uma das filhas.

Não resolveu o conflito, afinal cada uma queria a laranja inteira: uma só a casca para fazer doce, a outra só o miolo para fazer um suco; se perguntasse a ambas, ela certamente saberia decidir melhor - daria toda a casca a uma e o miolo a outra (partindo, não solucionou o conflito, ambas as meninas foram chorar porque acreditavam que metade não daria um suco e a outra, que metade da casca não daria um doce).

Obs.: No meu modesto entendimento, esse fictício conflito ainda poderia ser resolto por elas mesmas - poderiam espremer as duas metades para o suco, e, após feito isso entregar as duas partes para a que queria fazer o doce, retirar a casca - todavia, uma decisão assim só deve ser tomada pelas partes envolvidas, um Mediador apenas conduz e orienta para que os envolvidos cheguem a um bom acordo para todos!

Outras Escolas importantes, além da de Harvard são: modelo Transformativo de Bush e Folger; o método Circular-narrativo de Sara Cobb (um misto da Escola de Harvard) e o criado por um Mestre Brasileiro (PhD), que admiro muito, de nome Jean C. Lima Dal Bianco, denominado por ele de Aceitação-Conformativa (sua elaboração se deu a partir dos modelos satisfativo de Harvard, onde estudou, somado ao Transformativo de Bush e Folger. (*Em outra oportunidade falaremos de cada uma delas).

Enfim, não conversando, não dialogando, definitivamente não se entende e o conflito permanece. Delante de um juízo oficial é quase sempre assim, muitas vezes o Magistrado sequer deixa as partes manifestarem de forma "pacífica", muito menos acolhedora: "pressiona, intimida" e no final, apenas decide o conflito como ele acredita ser o mais correto. Isso é um terceiro decidindo o que é melhor para sua vida - na Mediação as próprias partes, sem interferência de um terceiro, são os que decidem!

Escutar, ativamente, e se colocar no lugar do outro (empaticamente), são as formas mais conhecidas de se chegar a um consenso rápido, quando comparado a levar a demanda a Juízo para que outro (um técnico em Direito - um Juiz togado) decida o que é melhor; sabendo, de antemão, que a "razão" será dada a um, ou pelo menos mais direcionada a um, que a outro! Ambos nunca saem 'totalmente' satisfeitos e não raro voltam a Justiça com a mesma ou nova demanda!

*Este artigo também pode ser lido aqui

Obs.: Em tempos Medievais os Vikings (navegadores Nórdicos) já faziam mediação - isso fica claro na série nomeada VIKINGS, já na 5ª Temporada.

_______

Veja também:

*Mediação de conflitos, um ato legal

*A cultura do Advogado litigante a todo custo

Por Elane F. de Souza (Advogada, autora dos seguintes blogs, pg do face e canal do youtube - *LEMBRETE: ao copiar ou redistribuir este texto cite, obrigatoriamente, a fonte, Gracias!).

Divulgando Direitos;

Diário de Conteúdo Jurídico por Elane Souza

Diário de Conteúdo Jurídico no facebook e

O canal DCJ no Youtube.

Imagens: Pixabay Grátis editada por Elane Souza, com Canva

A seguir um vídeo com 3 temas: O principal é o do artigo, após este é o encerramento (a pedido judicial) de uma página no face que denegria a imagem dos Advogados perante a sociedade e, por último, sobre a imensa quantidade de profissionais mortos assassinados por causa de demandas.

10 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Excelente artigo. A mediação data de priscas eras, conforme o próprio texto indica ao abordar a passagem bíblica com o rei Salomão, que viveu 2 mil anos antes da era dos vikings. E mais: 2 mil anos antes do rei Salomão, a história do Egito já nos mostra que eles prosperavam na mediação. Tudo era negociado. Não existem muitos relatos de guerras sangrentas na história do império egípcio da Antiguidade. Tanto é que quando foram invadidos por povos da região hoje conhecida como turquia, estavam bem despreparados para uma grande guerra em termos de tecnologia (da época). De novo, tiveram que negociar com os invasores, o que não é difícil de entender já que os invasores, mesmo notando a fragilidade tática do "inimigo", não podiam deixar de notar a enorme riqueza do faraó e como diz o ditado, dinheiro não compra felicidade, manda buscar. Com a influência do faraó ele poderia se aliar a exércitos poderosos da "china" (não lembro como chamava a região na época) e eles perderiam na certa. Enfim, a lógica é essa: aproveite a vantagem da batalha e evite a desvantagem da guerra. Talvez eles não vencessem próximas batalhas com a influência e o poderio econômico do faraó. Então, mediaram, porque alguma coisa é sempre melhor que nada, e a paz vale mais que a guerra. E não se iludam. Por mais que hoje hajam palavras bonitinhas para falar do Direito, a verdade é que o processo judicial é um campo de batalha sim. Uma queda de braço, um cabo de aço, onde se mede forças econômicas das partes e intelectuais de seus causídicos, além de forças de prestígio e influência de ambos (partes e causídicos). O que o cidadão não sabe é que quando ele recorre, ele está entregando nas mãos de Deus e da sorte, porque sem poder econômico para financiar as idas de seus advogados às capitais onde se situam os tribunais, para pagar inclusive por boas sustentações orais até mesmo de advogados especializados em atuação nos tribunais, etc, somente a pena de seu advogado, por melhor que seja, pode não ser suficiente para o fim pretendido. Advogar nos tribunais superiores também é outro desafio, porque toda a dinâmica é diferente e comprar essa briga sem recursos pode ser mera perda de tempo (e na maioria das vezes é mesmo). O que eu digo para os clientes aceitarem acordos razoáveis é que as perdas fazem parte da vida. Quando sofremos um prejuízo, nada irá repor a perda. O que alcançamos num processo judicial é uma diminuição de perda. Não dá pra ter "lucro" numa ação judicial. Os honorários já custam uma boa parcela dos ganhos. Isso se ganhar. Pra não falar das custas processuais, dos honorários de terceiros (que em causas complexas sempre tem), como peritos, contadores e até outros advogados com quem seus causídicos precisam firmar parcerias para tocar o processo na subida. Valerá a pena tudo isso? E enquanto a causa não se encerre, a parte não dorme direito. Isso pode durar anos. Décadas até. Valerá a pena? Vale a velha máxima que aprendi logo nos primeiros meses da faculdade: mais vale um mau acordo que uma boa demanda. Nos USA a parte demandante que consegue acordo com o réu se sente vitoriosa. Por falar em seriados vemos isso claramente em Suits. Eles contam os acordos na coluna das vitórias (e as duas partes fazem isso, mesmo aquela que esteja na posição mais fraca da negociação). Porque é uma vitória. Para o demandante principalmente o é. Se seu caso assusta o oponente o bastante para que ele ofereça um acordo para evitar uma perda maior no futuro, vc já está no lucro. Ah, mas e se eu continuar e vencer, não vou ganhar mais? Sim. Mas e se continuar e perder? A demanda é tudo ou nada e o acordo é alguma coisa na mão. Bota uma pedra em cima, dê o caso por encerrado e vá viver a vida. continuar lendo

Sempre com excelentes comentários;

A Dra. agrega muito valor a todos os textos que comenta (a gente escreve A, ela acrescente B, C e D), pena que há muito tempo não pública (oficialmente) artigos por aqui, se bem que os comentários são quase mais que artigos!

Parabéns a vc Dra. por tão belo comentário e por se dar um tempinho lendo o meu texto.
Aguardo os seus próximos artigos!
Obrigada continuar lendo

Dra. Elane, excelente artigo! continuar lendo

Obrigada Dra. Priscylla pela mensagem e leitura!
Bom dia para ti continuar lendo

Prezada Dra. Elane. Está aí algo que o Poder Judiciário não sabe o que é... Em regra, geral, com raras exceções. Colocar um "estagiário" antes da audiência e ele dizer para as partes "conversar" é o que ele chamam de "Tentativa de Conciliação". Quem faz isso são AMADORES ou com pura má-fé. A conciliação ou mediação exige técnica, conhecimento básico do processo e do que está se julgando, é trabalho técnico e não colocar o mais desqualificado ou despreparado para fazer. Só o judiciário que pelo visto não sabe disso. Ah, no TJSC tem (ou tinha) os "Mentirões de Conciliação" (Juro, eles chamam de Mutirões.. kkk), depois vem números fantásticos, conseguimos 80% de conciliação! MENTIRA! Se fosse verdade, fecha o judiciário e só se faça mutirão de conciliação todo dia, toda semana, todo mês, e vamos resolver 80% dos problemas do judiciário em 1º e 2º grau, para os casos de direito disponível. Tudo balela!!! Pior, tem gente que acredita! continuar lendo

Verdade Dr. um pouco desses números apresentados são mentirosos, no entanto já acredito que haja algum avanço; não de 80% como dizem, mas algo há e nem todos são estagiários (apenas alguns).

Já em se tratando de Mediação, a Extrajudicial funciona; pois ninguém é obrigado a ir, a fazer acordo e tampouco permanecer; alé disso tudo é sigilo total (toda documentação, exceto o acordo, se houver, pois terá que ser homologado); mas existe a Med. Judicial e esta tem que ser realizada por alguém inscrito no CNJ e no Tribunal local, 2 anos de formação superior em qualquer área e mais um curso de mediação reconhecido pelo Conselho Nacional de Justiça!

No entanto, verdade seja dita, a Justiça gosta muito de se aparecer! continuar lendo

NA ÍNTEGRA:
Um Sábio Veredicto

16 Certo dia duas prostitutas compareceram diante do rei. 17 Uma delas disse: “Ah meu senhor! Esta mulher mora comigo na mesma casa. Eu dei à luz um filho e ela estava comigo na casa. 18 Três dias depois de nascer o meu filho, esta mulher também deu à luz um filho. Estávamos sozinhas; não havia mais ninguém na casa.

19 “Certa noite esta mulher se deitou sobre o seu filho, e ele morreu. 20 Então ela se levantou no meio da noite e pegou o meu filho enquanto eu, tua serva, dormia, e o pôs ao seu lado. E pôs o filho dela, morto, ao meu lado. 21 Ao levantar-me de madrugada para amamentar o meu filho, ele estava morto. Mas quando olhei bem para ele de manhã, vi que não era o filho que eu dera à luz”.

22 A outra mulher disse: “Não! O que está vivo é meu filho; o morto é seu”.

Mas a primeira insistia: “Não! O morto é seu; o vivo é meu”. Assim elas discutiram diante do rei.

23 O rei disse: “Esta afirma: ‘Meu filho está vivo, e o seu filho está morto’, enquanto aquela diz: ‘Não! Seu filho está morto, e o meu está vivo’”.

24 Então o rei ordenou: “Tragam-me uma espada”. Trouxeram-lhe. 25 Ele ordenou: “Cortem a criança viva ao meio e dêem metade a uma e metade à outra”.

26 A mãe do filho que estava vivo, movida pela compaixão materna, clamou: “Por favor, meu senhor, dê a criança viva a ela! Não a mate!”

A outra, porém, disse: “Não será nem minha nem sua. Cortem-na ao meio!”

27 Então o rei deu o seu veredicto: “Não matem a criança! Dêem-na à primeira mulher. Ela é a mãe”.

28 Quando todo o Israel ouviu o veredicto do rei, passou a respeitá-lo profundamente, pois viu que a sabedoria de Deus estava nele para fazer justiça. continuar lendo