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23 de Janeiro de 2020

Escravidão justificada: "índio não gosta de trabalhar, por isso os Portuguêses trouxeram os negros"!

Procurador justificando escravidão de negros, capturados ou comprados na Africa

Elane Souza DCJ Advocacia, Advogado
há 2 meses

A polêmica do dia:

Procurador, ouvidor-geral do Ministério Público do Pará, Ricardo Albuquerque da Silva, teve a infelicidade de um áudio seu vazar com a seguinte afirmação:

"Houve escravidão porque índio não gosta de trabalhar", inclusive afirmou que até hoje seguem assim! Naquele tempo o índio preferia morrer que cavar mina!

Foi por isso que os Portuguêses tiveram que trazer pessoas da Africa (compravam prisioneiros de guerra ou capturavam e traziam para os trabalhos mais forçados - ou quase todos os trabalhos, exceto os trabalhos intelectuais e de Estado).

O Ministério Público no Estado repudiou as afirmações de Albuquerque e disse que elas “refletem tão somente a opinião pessoal do referido membro da instituição”.

“O Ministério Público do Pará tem trabalhado para assegurar a implementação de políticas públicas para garantir às populações negras e indígenas a efetivação da igualdade de oportunidades”, disse, em nota, a Procuradoria de Justiça do Estado.

A crítica da replicante:

Ok, pessoas invadem suas terras, seu lugar onde nasceu e cresceu (e portanto vive como quer), daí chegam uns "cara pálidas" querendo te obrigar a trabalhar para eles, sem nada em troca (às vezes, chicote), dentro de seu próprio terreno (seu próprio patrimônio) e ainda é chamado de preguiçoso?

Vaia por Diós, de onde viemos e onde vamos parar com tanta intolerância, racismo e falta de humanidade - o que diferencia um índio de um alemão é que o último é branco. Já, a diferença entre nós, brasileiros? Nenhuma - toma essa!

Se precisar de sangue, medula ou órgão, parte de qualquer um (indígena, negro, alemão, etc) será compatível com a de outro humano - só diferencia os tipos sanguíneos (O+ , O- , AB+ e AB-), fazemos, portanto, parte da raça humana (todos nós); não dos ovinos, tampouco suínos!

Os indígenas eram e são os verdadeiros donos da terra - porque deveriam trabalhar para ladrões, para invasores?

Atualmente vivemos em um Estado que valoriza e pune quem nao respeita o Direito de Propriedade; agora imagine que você tenha uma grande casa, com muitos quartos, salas, quintal enorme, piscina - vive num verdadeiro luxo - imaginou?

Pois é: agora suponha que chegue um pessoal até bem apessoado e bem vestido (como eram os portugueses) e invada seu lar - afinal tem um grande quintal e quartos sobrando - só vive você e seu marido; para que tanto espaço vazio, sem utilidade, sem uso?

Assim que essa gente, munida de armas potentes, que você talvez nem conheça o potencial, resolva invadir sua casa e ainda te obrigue a trabalhar para eles (cozinhar, plantar frutas no quintal, arrumar o jardim, que antes você pagava para arrumar, e fazer todo tipo de serviço necessário para deixá-los cômodos)?

Às vezes, para piorar resolvem violar sua mulher ou a filha (se tiver uma)!

O que você faria? Aceitaria de braço cruzadinho? Ou preferia lutar, e até morrer para continuar usufruindo sozinho do que é seu?

Talvez, generosamente, como foram algumas tribos (outras praticamente foram extintas, por se negarem à escravidão), você agisse com generosidade e decidisse compartilhar o local, mas não ser escravo! Estou certa?

Pois é, por isso que sempre escrevo, e até faço campanha em meus blogs, que está passando da hora de todos nós respeitarmos os indígenas e quilombolas (e suas terras) - eles as merecem tanto quanto nós, ou mais - pensem nisso, povo de Deus!

Felizmente não foi uma opinião do MP-PA - foi isolada; o representate da imprensa do referido Ministério Público, em nome de todos os Procuradores, publicou uma nota de repúdio contra a fala do Procurador (agradecemos que seja assim). Ver nota aqui:

Por Elane F. de Souza - (Advogada, Autora dos blogues Diário de Conteúdo Jurídico, Diário de Conteúdo Jurídico JusBrasil e Divulgando Direitos.

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Fonte: Jornal de Brasília, inclusive foto (de reprodução MP-PA)

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3 Comentários

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Bom!

Em primeiro lugar, os índios sempre foram trabalhadores; mas do campo. Eles nunca foram vagabundos que não queriam trabalhar, foram humanos que não queriam se escravizados; é diferente! Sua cultura, ou seja, suas inspirações e ambições, nunca ultrapassaram os limites do campo, portanto esta história de que índios eram preguiçosos é pura falácia de historiador, pois da mesma forma que existem historiadores de dizem que eles eram preguiçosos, existem àqueles que dizem o contrário. Seus costumes e inspirações bastavam para eles!

Hoje, existem várias áreas como a Antropologia e a Própria história, por exemplo, que corroboram com este entendimento mais assertivo!

Na verdade o que eles não queriam, assim como todos nós, era serem escravizados, pois quando o líder de uma oca, ou chefe de família precisava ir, por exemplo, a caça, e que algum outro não poderia por causa de outros afazeres, àquele outro se comprometia de caçar para as duas ocas, para as duas famílias!

Os índios tinham uma cultura completamente incompatível com o restante do mundo. O trabalho como o conhecemos há anos, não eram do conhecimento e convívio indígena, portanto, tratava-se de um proceder completamente estranho a seus costumes...

Temos que entender ainda que por ser um povo de cultura diversa e, portanto, livre jamais aceitaria ser escravizados!

A forma como muitos ainda veem hoje esta situação ou noção sobre os índios, deve ser revista com mais consultas a livros de histórias não tão tradicionais...!

Rogério Silva

Referências:

Palestra apresentada no dia 08/09/2016, na mesa “Questões Indígenas, Movimentos Sociais e Genêro” como parte da programação da XVII Jornada do Trabalho - “DESAFIOS PARA O TRABALHO E AS NOVAS FRONTEIRAS DE EXPANSÃO DO CAPITAL EM TEMPOS DE GOLPE”, realizada na Universidade Federal do Tocantins, Campus de Porto Nacional.
André Demarchi é doutor em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professor e pesquisador na Universidade Federal do Tocantins, onde leciona no curso de Ciências Sociais e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade. Realiza pesquisas com os povos Mebengôkre-Kayapó e Apinajé.

Para um artigo esclarecedor da complexa posição do indígena no sistema jurídico brasileiro ver o texto bem acessível da advogada Ana Paula Souto Maior, intitulado: Imputabilidade penal, que está acessível em: http://pib.socioambiental.org/pt/c/direitos/temas-recentes/imputabilidade-penal

As 10 mentiras mais contadas sobre os indígenas
Por Lilian Brandt* / AXA
https://conflitosambientaismg.lcc.ufmg.br/noticias/as-10-mentiras-mais-contadas-sobre-os-indigenas/

Escravidão indígena: nas sombras da História
http://www.ct-escoladacidade.org/contracondutas/editorias/escravidao-na-historia-antiguidadeecontemporaneidade/escravidao-indigena-nas-sombras-da-historia/ continuar lendo

Bom dia Dr. @rogeriorsf
Foi um belo comentário..., muito obrigada pelos esclarecimentos que complementaram o texto.

As fontes também parecem ser de excelência - quando tiver um tempinho darei uma boa lida em cada texto dos links.
Abraço e muito sucesso para ti continuar lendo

Amiga, com todo respeito a seu artigo, mas acho uma pena que as pessoas cheguem às raias da loucura de levar alguém a sofrer "notinha de repúdio" só porque falou a verdade. Sim, a verdade. Esse foi o motivo dos portugueses terem trazido os africanos. E isso está na HISTÓRIA. Meu Deus. Agora o que falta? Se eu disser que o Japão atacou soldados indefesos em Pearl Harbor eu vou ter que pagar alguma coisa por isso? Se eu disser que Fulano dispensou seu empregado sem justa causa, sou eu, por acaso, que vou ter que figurar no pólo passivo da ação trabalhista do empregado? A gente falar que alguma coisa aconteceu não faz da gente responsável pelo evento! Você fala uma coisa que aconteceu e as pessoas te tratam como se tivesse sido você quem fez a coisa. Sei não viu. continuar lendo