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14 de Novembro de 2019

A banalidade do mal faz de "todos nós", um pouco, Adolf Eichmann

O Julgamento, em Jerusalém, que abalou a Psicologia e o Direito

Elane Souza DCJ Advocacia, Advogado
há 18 dias

Quando, em 1933, Adolf Eichmann passou a fazer parte do Serviço Militar Alemão, será que ele imaginava que, 6 (seis) anos mais tarde haveria uma guerra (II Guerra Mundial) e poderia, no final, ser co-responsável direto pela morte de 437.000 mil pessoas transportadas (deportadas sob suas ordens) da Hungria para, quase sempre, Auschwitz (Sul da Polônia)?

Creio que não; mas o fato é que este Senhor, que chegou a Tenente-Coronel pelos "bons serviços prestados" durante a Segunda Guerra Mundial, foi responsável pela deportação de 725.000 mil Judeus Húngaros à Polônia (aos campos de concentração), felizmente, nem todos foram mortos - do número citado neste parágrafo lamentavelmente 437.000 mil acabaram nas câmaras de gás de Auschwitz!

Antes disso, os Judeus Húngaros já haviam sido amontoados em Guetos da Hungría; forçados a saírem de suas casas para viver nesses locais onde só havia pessoas com a mesma nacionalidade ou descendência - independentemente da classe social anterior todos passaram a experimentar as péssimas condições de um gueto vigiado.

Esta foi a solução* que encontrou Superiores como Heydrich, militar em contato direto com Hitler, juntamente com Eichmann, também militar, fiél à Alemanha Nazista, a serviço da Schutzstafell (SS): Reunir todos os Judeus que encontrasse em um só local para, posteriormente, transportá-los aos campos (mas para convencê-los, sem maiores transtornos, mentiam que seriam apenas deportados à Polônia).

*Solução final: plano nazi de Genocídio do povo judeu.

Nesses locais faltava água, comida, as condições higiênicas eram precárias e por isso, mesmo antes de imaginarem os campos, onde iriam parar mais tarde, a segregação, com as péssimas condições acabou colocando fim na vida dos mais fracos (certamente alguns idosos e crianças)!

Mas, quem foi esse homem que 'organizou' a partida de todos os Judeus/húngaros em direção a uma morte certa?

A primeira resposta foi dada por Hannah Arendt em seu famoso escrito, que após publicação, em formato de artigo, no Jornal The New Yorker, transformou-se no livro Eichemann em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal: "apenas um homem banal"; como eu ou você, ou pelo menos como a maioria de nós!

Alguém que obedece ordens e a Lei do momento, sem pensar, sem "pestanejar", sem remorço de que àquilo que irá realizar é o melhor ou o correto a fazer! A conclusão que se tem é: Um funcionário, um servidor exemplar para o que seus superiores necessitassem no momento - além do mais, tudo que fizesse seria um 'plus' na carreira militar; ganhos e condecorações viriam e eram bem quistas!

Para chegar ao julgamento que o condenou à morte foi cassado por longos anos; no final da guerra fugiu para a Áustria e em 1950 para a Argentina, usando documentação falsa. Lá, em um pequeno povoado foi acolhido, trabalhou e seguiu criando a família - um de seus filhos nasceu naquele país, tanto que quando foi descoberto a Argentina negou a entregá-lo.

Capturado (sequestrado em território Argentino - 1960) pelo serviço secreto Israelense (Mossad), Eichmann foi levado à Israel e alí permaneceu preso até o julgamento em 1961. O Presidente do Julgado citou 15 (quinze) crimes, os principais: DE GUERRA, CONTRA A HUMANIDADE e CONTRA O POVO JUDEU, com isso foi condenado à morte. Sua execução por enforcamento se deu em 1º de junho de 1962.

Participante ativa no Julgamento de Eichmann, Hannah Erendt, como estudiosa de Jornalismo Político e apaixonada por Filosofia percebeu o quão banal era àquele homem, que sempre fazia questão de afirmar que não tinha nada contra os judeus, apenas cumpria ordens superiores e a lei do seu país. Em outras palavras: o Tenente-Coronel da SS, Eichmann era apenas "um pau mandado", um palhaço, um fantoche do regime"!

Durante o julgamento não parece o monstro que o mundo queria ver e acreditar - de tão banal, de tão comum, parecia mais um burocrata, mais um administrador que um militar linha dura, ou um militar com características psicopáticas, alguém com capacidade para coordenar, enfileirar, e despachar pessoas sabendo do destino - qual seja? Morte certa!

A banalidade do mal

Com o tempo, a " banalidade do mal ", descrita pela primeira vez por Hannah Arendt passou a ser motivo de pesquisa no campo Psicológico e Psiquiátrico.

Acabaram descobrindo muita coisa acerca do que o ser humano é capaz, sob ordens. A capacidade de obedecer comando superior e não se importar com as consequências, com a dor alheia, com o sofrimento alheio é inacreditável; especialmente quando essa ou essas ordens vêm acompanhadas de algum ganho pessoal ou familiar - que poderia ser dinheiro ou qualquer outra coisa de valor para a pessoa subordinada.

Um desses experimentos foi inspirado justamente no que escreveu Hannah sobre Eichmann durante o julgamento: Experimento de Milgram, foi aplicado pela primeira vez pelo Psicólogo Stanley Milgram, da Universidade de Yale, no ano de 1961.

A finalidade era verificar se a tese de Hannah Erendt estava correta - se as pessoas tendem a obedecer ordens sem questionar.

Para isso Milgram recrutou 40 voluntários (homens) entre 20 e 50 anos que foram apresentados a dois atores que fingiam ser alunos também voluntários.

Esses 40 voluntários, um de cada vez, ficaria em uma cabine fechada, com uma janela de vidro, onde via e ouvia a 'vítima' de sua obediência levar supostos choques graduais - quanto mais errava a resposta das perguntas, mais recebiam ordens de aumentar o choque - assim era o experimento.

Enquanto isso, o ator, subjugado, amarado a uma cadeira, falsamente eletrificada levava choques (que começavam em 15 e chegariam a 450 volts); o COMANDO dado ao voluntário, chamado de Professor, poderia ser 'desobedecido'; ele poderia se negar a dar qualquer choque ou a seguir aumentando (era livre para dizer não, afinal não estava sob ameaça de morte).

Antes da pesquisa previam que apenas 0,1% dos participantes dariam o choque - no entanto, todos deram alguns choques no ator que consideravam aluno voluntário - mesmo no final, quando o ator dizia que era cardíaco e poderia morrer com mais choques, 2/3 dos 40 voluntários foram até o fim!

Conclusão - Hannah Erendt tinha razão: pessoas comuns, pessoas banais, sem nenhum transtorno narcísico ou psicopático, podem ser algozes, tremendos malfeitores na vida dos demais seres humanos quando são ordenados a cumprir regras que não são tão legais como parecem; é uma triste conclusão a falta de empatia que " nos é nata " - em especial quando envolve alguém de quem não temos apreço em detrimento de temos (que não foi nenhum dos casos).

*Experimento de aprisionamento de Stanford (Califórnia - EUA) - realizado em 1971 por um grupo de estudos científicos de Psicologia

O referido estudo consistia em colocar 24 pessoas em um falsa prisão (mas, detalhadamente preparada como prisão); todos os volutários eram brancos e maioria estudantes da Universidade que seriam, após as duas semanas de 'cárcere', indenizados com um valor previamente combinado.

Sortearam, dentre esse grupo de 24 pessoas: 12 seriam prisioneiros e 12 seriam guardas prisionais. Imaginam o que aconteceu? De tão forte o tema e a conclusão, que a cinematográfica americana transformou em filme, quase considerado de terror!

Não vou fazer 'spoiller' porque o filme vale muito a pena ver (apesar de perturbador). Mais uma vez a conclusão do estudo foi sinistra: a falta de empatia, a capacidade do ser humano ser mal com o outro, quando tem VOZ de comando (poder), ou é comandado e pode ter regalias com a obediência ou delação é simplesmente doentia.

A seguir um estudo que demonstra como o ser humano é capaz de agir como 'MANADA', ou seja, ter a tendência de fazer parte de grupos e estar em conformidade

Trata-se do estudo realizado por um dos representantes da Psicologia mundial mais aplaudidos - Salomon Asch, este era o nome do Polonês de Varsóvia que batizou de " Conformidade social " o seu experimento mais conhecido.

Não vou prolongar mais acerca do assunto, apenas deixarei um link de um artigo que publiquei no JusBrasil (há um tempo), onde escrevi sobre o tema, baseando-me em pesquisas acerca do estudo em questão - logo, é algo bem mais complexo que seria posto aqui; já que o tema deste artigo " apenas interage "com o que acabo de referir - todavia, creio que há muito o que relacionar com os demais experimentos citados anteriormente.

Sozinhos somos capazes de atitudes atrozes, especialmente se não houver ninguém a nos vigiar (quando fazemos o bem é para " inglês ver "- ficar bem na fita, não porque somos bons de verdade)! Do mesmo modo, em Conformidade social, melhor dizer -" em MANADA ", somos quase invencíveis! Para exemplificar e finalizar: Hitler, com seu diálogo intolerante e de eficaz convencimento, foi capaz de liderar uma grande manada - por isso é sempre bom estarmos vigilantes sobre nossas atitudes e a de quem nos cerca ou governa; nesta hora, vale até um ditado popular: " diga com quem andas, que direi quem és "! Por Elane F. de Souza (Advogada não atuante), autora deste e dos blogs:

https://www.diariodeconteudojuridico.com

https://divulgandodireitos.com

Um canal do Youtube só de DIREITO e agora uma rádio FM na web

Fonte que inspiraram o texto: revistagalileu.globo; e três filmes, sendo 1 deles documental com artistas consagrados: O primeiro sobre a ida e participação de Hannah Arendt no julgamento em Jerusalém; outro sobre o experimento da prisão (citado no corpo do texto) e o de Milgram (documental/filme), e, por fim o meu próprio artigo no JusBrasil.

Foto/Créditos: por DW.com assinada pelo real autor

Obs.: Abaixo o link do artigo inteiro que citei acima sobre Conformidade Social:

https://diariodeconteudojuridico.jusbrasil.com.br/artigos/604003670/conformidade-socialeo-efeito-manada-ha-diferenca-seria-possivel-extrair-algo-de-bom-nesse-comportamento

2 Comentários

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Muito Bom Amada!
Parabéns; coerente, cheio de informações... Uma história que gostaríamos de esquecer, mas não devemos e muito menos podemos...! continuar lendo

Bom dia
Obrigada pela leitura e comentário...também pelas palavras bonitas!
Sucesso para ti meu caro amigo jusbrasiliense! continuar lendo