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21 de Outubro de 2019

Suicídio Assistido = morte digna! Caso do Espanhol que pôs fim à vida da esposa, após 30 anos dela, com Esclerose Múltipla

Elane Souza DCJ Advocacia, Advogado
há 6 meses

"Se você é daqueles que esperam e TORCEM MUITO para que chegue a sexta-feira e só assim sair para o happy hour, você é uma pessoa infeliz"! (Texto extraído de palestras de Clóvis de Barros Filho, Filósofo, Professor Universitário e Palestrante de sucesso, mas com outras palavras); para encerrar o parágrafo, mais uma dele: "A vida só vale a pena quando é bem vivida - quando você tem 'potência' de vida"!

Quando alguém se diz agradecido pelo que tem, mas vive esperando o amanhã para ver a mudança das coisas, não é feliz! Esperar a graduação, esperar a realização de um casamento, esperar a chegada dos filhos, esperar as férias, etc - viver esperando e deixando passar o único que tem em mãos, que é o dia de hoje, é lamentável!

É torcer para que a vida acabe logo - infelizmente, ninguém se dá conta de que o amanhã (se chegar) é um dia a menos de vida!

Geralmente não conseguimos captar que o passado, PASSOU, e que o FUTURO pode não chegar; inclusive àquelas férias tão esperadas, com pacote comprado!

*Este artigo também pode ser lido AQUI.

Portanto, vivamos o hoje; as alegrias e tristezas do hoje, pois é o único certo que temos!

Introduzi esse 'choque de realidade' para contar uma história:

Há 3 (Três) ou 4 (quatro) dias, um Senhor Espanhol foi preso em Madrid porque ministrou, em sua esposa, uma substância para terminar com a "pouca vida" que restava nela, já havia 20 anos que ela mesma considerava pouca e sem valor!

Maria José Carrasco sofria de Esclerose Múltipla havia 30 anos - com o tempo, o piano que tocava emudeceu e os pincéis que usava para pintar deterioram em um canto qualquer da casa - desde então, tudo mudou! A casa em si transformou para se adaptar a cadeira de rodas e mais adiante mais coisas foram mudando até que ela deixou de falar (apenas murmurava), mal enxergava e, muitíssimo mal se mexia.

Para administrar a substância que levou a Sra. Carrasco à morte foi preciso da ajuda do esposo Ángel Hernández. Ela não temia por ela; aliás, ela queria e necessitava 'partir' (já não aguentava mais); mas temia por ele; temia as consequências do ato de acabar, ou ajudar ela a acabar com a própria vida - sabia que ele poderia parar na prisão!

E foi o que aconteceu! Assim que ministrou a substância e pôs fim a vida da esposa ele chamou a polícia que o encaminhou ao cárcere! Os policiais que o levaram disseram sentir muito por ele (mas tinham que prendê-lo); no entanto, assumiram que, no lugar dele, fariam o mesmo.

O link a seguir mostra toda a hombridade e dor do Sr. Hernandez ao chamar o hospital e a polícia!

https://www.youtube.com/watch?v=6_VViKKDnYU

Há tempos que parcela significante dos Espanhóis vem lutando para que seja aprovada uma Lei que permita a Eutanásia (ou suicídio assistido).

Com a prisão, o Sr. Hernández sequer pôde sair para preparar o corpo da esposa para o tanatorio (funeral); agora é um criminal que ajudou (emprestou suas mãos) para a esposa engolir a substância letal!

Quem já assistiu o Filme Mar Adentro (com o personagem principal, também espanhol, Javier Barden) sabe como é difícil atender a pedidos como esse da Sra. Carrasco.

No filme, quem ajudou Rámon (personagem de Javier Barden) foi sua cuidadora e amiga; isso, após muita imploração do doente (família, amigos, sociedade e justiça - todos eram contra).

No final (após alguns anos) a ajudante do suicida acaba não sendo condenada - há uma prescrição do crime que só assistindo para saber (não sou spoiller)!

Depois do sucedido com o Sr. Hernández (após sua prisão) A ONG Direito a Morrer Dignamente (ES), decidiu ir mais à fundo para que a Lei em tramitação seja sancionada rapidamente e todos os que sofrem como a Sra. Carrasco sofria, possam morrer com um pouco de dignidade e não tenha que involuncrar (envolver) mais ninguém na morte!

AINDA SOBRE EUTANÁSIA E SUICÍDIO ASSISTIDO

Há mais ou menos um ano, o caso de um Sr. Australiano de 104 anos (David Goodall) me chamou atenção; foi por meio deste caso que decidi fazer minha tese de pós com o assunto determinado: Direito de Morrer Dignamente.

Ele, cientista, saudável, física e mentalmente para a idade de 104 anos, decidiu que queria morrer; fez uma 'festinha' de despedida com a família (que ficou triste, mas entendeu) e viajou, com acompanhante até a Suíça para fazer Eutanásia, pois na Austrália ainda não se permitia (agora, em 2019, sim - a Lei, naquela época, estava pronta, mas em vacatio legis)!

Primeiro foi à Bordéus (França) para visita e despedida de mais familiares; chegando à Suíça, questionado pela decisão, falou em entrevista que estava cansado e triste - apenas isso; que desde os 70 anos já estava e que, no seu entendimento, todos, a partir dos 65 deveriam (ou poderiam) escolher entre, seguir vivendo ou partir (doentes ou saudáveis)!

Não é justo incriminar familiares que se envolvem na morte piedosa de seus doentes terminais - melhor que exista lei, em todos os países; assim, os que desejarem morrer podem ser assistidos pela família e profissionais médicos em seu momento final; evitaria culpar quem não merece - como no recente caso do Espanhol Sr. Hernández!

E NO BRASIL?

Aqui, nada temos nesse sentido, sequer previsão legislativa. Há quem fale, há quem seja a favor, mas parece TABU falar em por fim à vida de quem sofre; parece que aqui ninguém morre e ninguém pode ficar em estado 'vegetativo'!

Matar é super normal; até fotografar, filmar e postar no youtube é comum (inclusive fazendo pose junto ao cadáver); no entanto...;

Felizmente, nós já estamos começando a adaptar à morte por Ortotanásia (em tese, "morte boa", sem sofrimento - apenas se ministra medicamentos para suprimir dores; mas deixa a pessoa ir naturalmente).

Por outro lado, ainda há pessoas que querem a vida à todo custo (Distanásia); pedem e imploram aos médicos que mantenha a pessoa com vida, porque foi pedido dela quando ainda tinha consciência, e/ou porque há dinheiro envolvido.

Por outro lado, no SUS, certamente não se faz isso - custa caro uma UTI e é 'rara' nos sucateados hospitais brasileiros; quem já está com "pé mais lá, que cá", os médicos, seguramente, são orientados pela administração do Sistema Único de Saúde (SUS) à Ortotanásia; ninguém do Sistema vai admitir, mas já soube disso por causa de um familiar que estava hospitalizado, em vias de 'partida' para o outro lado - não faziam nada, apenas ministravam drogas para dor e até o retiraram da UTI, afinal tinha gente com mais chance de vida e, mais jovem que precisava do leito! 'Verdade dura, mas é pura'!

Por isso, sou favorável à Eutanásia ou suicídio assistido - assim é você quem decide; não vai para um quarto (deteriorar-se até o fim) só porque o leito de UTI que está ocupado por você é necessário a outro que tem mais chances de vida!

Por uma morte digna, já! Por uma Lei que autorize a Eutanásia ou Suicídio Assistido no Brasil; que não sejamos os últimos a levantar a bandeira da dignidade!

Por Elane Ferreira de Souza, Advogada não atuante, Blogueira em Divulgando Direitos e Diário de Conteúdo Jurídico e a fã page dos referidos blogs (D.C.J).

*Ao copiar, favor citar fonte

Créditos/foto: na própria foto que é da RTVE-ES

Fonte inspiração: 1 El país.com Brasil e 2 El país BR caso Sr. de 104 anos

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23 Comentários

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Sou um cristão e, já li muito a respeito do assunto (eutanásia). Conheço um pouco disso. Apesar de ser um cristão, sou REALISTA e sei que devo conviver com outras pessoas que não pensam do mesmo modo que eu. Já ouvi muitos "burburinhos" sobre um doente pobre (sem recursos financeiros), principalmente, ser "relegado a segundo plano", num leito de hospital, quando já não há mais expectativas de cura e ou devido sua idade já avançada. Quantos morrem sob um pontilhão de uma ponte, onde residem, devido a miséria humana, por abandono, ou por opção? Já visitei (para fazer doações) muitos asilos e, ali presenciei muitos idosos totalmente abandonados pela família. Não sei se estou certo ou errado, mas já estou preparado (financeiramente) pra não ficar e nem deixar minha FIEL companheira (esposa) de mais de 50 anos juntos, na dependência de assistencialismo do governo. Infelizmente, eu e ela (esposa), temos a mesma opinião a respeito do sofrimento decorrente de uma doença, principalmente somada com a idade já avançada, dependendo dos outros, quer seja uma cuidadora ou um filho. Pensamos muito nisso, pois ambos, apesar de nossa idade, ainda somos muito ativos em TUDO (?). Se fosse eu o juiz a julgar esse patrício (sou descendente de espanhóis), o absolveria, deixando sua condenação, se assim o for, para o Criador... continuar lendo

Boa noite Sr. Perciliano
Muito interessante e sensato o teu comentário; obrigada pela participação!
Att. Elane Souza continuar lendo

Tenho esperança de que realmente a nossa legislação mude e permita a eutanásia. Minha mãe ficou num leito de UTI por 2 meses e 15 dias sem nenhuma possibilidade de recuperação. Certo dia consegui entrar antes do horario de visita e ao redor da cama dela eles estavam juntando os sacos de lixo hospitalar para depois remover todos de uma só vez. Não quero essa visão pra ninguém, minha mãe em coma numa cama cercada por lixo continuar lendo

Só um pouco diferente do meu AVÔ; ele não tinha mais esperança de muito tempo de vida e estava no SUS ocupando uma UTI.

Um "belo dia" retiraram ele de lá dizendo que era para dar um "choque de realidade nele", se ele melhorasse ia para casa, se não ficaria no quarto (mesmo entubado); os mais próximos retiram a minha tia que era cuidadora diária (na verdade deram um descanso para ela, já que foi a única a cuidar dele Nos últimos 7 anos, mesmo que ela estivesse lá, ele NÃO saberia; os que estiveram no hospital, nos últimos dias foram alguns tios, minha mãe ou a nora mais querida dos meus avôs!

No dia da morte era a Nora que estava lá: disse que desde antes dos três seguidos ataques que deu para morrer, todas suas extremidades já estavam azuis (livor mortins); nos dois dias antes não ia ao banheiro, só fazia algumas caretas e permanecia de olhos fechados, só franzindo a testa e grunhuindo (certamente de dor).

Era uma pessoa que estava praticamente morta, OS MÉDICOS SABIAM, e as enfermeiras também certamente estavam orientadas para só administrar remédio para dor....; quando a nora do meu avô chamava elas, elas chegavam e diziam: é assim mesmo, logo passa! PASSOU, faleceu em um quarto de hospital público e fora da UTI, item precioso no SUS!

Bem antes de finalmente ter que ir para o hospital, ele disse: ESTOU CANSADO, já não quero mais estar aqui - se houvesse morte assistida a vontade dele teria prevalecido, e a humilhação da retirada da UTI teria sido evitada!

Pensem nisso, curtam e vivam enquanto há saúde - depois que algo assim chega (sem chances de volta), é melhor ir com DIGNIDADE! continuar lendo

É assim que a maioria de nós todos, senhora Marlene Freire, estamos sujeitos, ao fim de nossas vidas. Uma triste realidade, para a qual não estamos PREPARADOS... continuar lendo

O Brasil deveria evoluir nesta questão. Em alguns casos se torna de extrema necessidade, pois apenas prolonga um tormento na vida da pessoa. continuar lendo

Boa tarde Colega, obrigada pelo comentário que, por acaso concordo plenamente!
Sucesso para ti continuar lendo

É realmente necessário que seja legalizada a eutanásia no Brasil, quantas pessoas que não tem mais condições de continuar vivendo, ou estão na condição de "vegetativos", ou sofrem muito com dores lancinantes. A pessoa deve ter o direito de escolha. continuar lendo